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Quarta-feira, 12 de Agosto 2026
Notícias/Direitos Humanos

Brasil: Mais de 150 mil agressões contra população de rua em uma década

Estudo revela um cenário alarmante com pelo menos 120 casos graves de violência diários contra pessoas em situação de rua, muitos sem notificação oficial.

Brasil: Mais de 150 mil agressões contra população de rua em uma década
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Um estudo recente aponta que o Brasil registrou um número chocante de 150 mil episódios de violência contra a população em situação de rua entre 2014 e 2023. Este dado alarmante, divulgado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/POLOS-UFMG), representa apenas uma fração do total real, já que a maioria dos casos não é oficialmente notificada.

A pesquisa, intitulada 'A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua', revela que 70% das vítimas de agressões não buscam atendimento médico ou legal. Essa barreira é frequentemente atribuída a experiências de discriminação e desconfiança nas instituições.

Diariamente, o sistema de saúde brasileiro contabiliza, em média, 120 casos graves de violência contra essa população. Desses, 75% exigem intervenção médica imediata, e 12% resultam em traumas físicos severos ou óbito, evidenciando a gravidade da situação.

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O professor André Luiz Freitas Dias, coordenador do estudo, enfatiza a subnotificação crônica como um dos principais achados. "Os dados disponíveis refletem apenas a 'ponta do iceberg' de um problema muito mais amplo", alertou, destacando o medo e as dificuldades de acesso aos serviços públicos como fatores impeditivos para a denúncia.

A recorrência da violência é outro ponto crítico. Muitas vítimas sofrem agressões repetidamente, acessando serviços de saúde apenas em situações emergenciais, sem que isso altere as condições de vulnerabilidade que levam a novas agressões. Isso configura um ciclo vicioso de exposição a riscos.

Robson César Correia de Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, corrobora a gravidade do cenário, apontando que a violência é ainda maior do que os números oficiais indicam, com participação de agentes do Estado em ações de zeladoria e remoções.

Ele critica a postura do Poder Público, que, segundo ele, falha em garantir os direitos básicos dessa população, como moradia e trabalho, e não fiscaliza o cumprimento das leis que os protegem.

Perfil das vítimas e agressores

A pesquisa cruzou dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e do Disque 100, indicando que os jovens negros são as principais vítimas, representando 78% dos casos notificados. Homens entre 15 e 49 anos concentram 82% dos ataques, embora a letalidade seja maior entre mulheres e pessoas trans.

O coordenador do estudo relaciona esse perfil a violências estruturais como o racismo e desigualdades históricas. Fatores como deficiência, transtornos mentais e identidade de gênero ampliam a vulnerabilidade, especialmente para violências sexual e institucional.

A aporofobia, termo que descreve a aversão a pessoas pobres, é apontada como um motivador frequente para a violência, praticada em grande parte por desconhecidos. No entanto, também há casos de agressões por parte de agentes do Estado, amigos, conhecidos ou parceiros íntimos.

Tipos de violência e recorrência

As agressões físicas lideram os casos notificados (65%), seguidas por violência psicológica (42%), negligência e abandono (18%), sexual (15%) e autoprovocada (10%). Cerca de 70% das violências ocorrem em vias públicas, transformando o espaço urbano em um local de alto risco.

A violência também é registrada em locais que deveriam oferecer proteção, como abrigos e instituições de acolhimento, evidenciando falhas nos mecanismos de prevenção e responsabilização.

Crescimento e interiorização da violência

O estudo aponta para um crescimento contínuo e preocupante das violências na última década, impulsionado por crises econômicas, desigualdades sociais e fragilidade das políticas públicas. As denúncias no Disque 100 mais que triplicaram entre 2020 e 2023.

Estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro apresentam indicadores de violência em "aceleração crítica". O fenômeno também se interioriza, com municípios de porte médio registrando crescimento acelerado de casos.

Recomendações e políticas públicas

Para combater essa realidade, o estudo recomenda a criação de sistemas de monitoramento preditivo, descentralização de investimentos, implementação de políticas públicas estruturantes (moradia, trabalho, educação) e fortalecimento da articulação entre saúde, assistência social, justiça e direitos humanos.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) informou que lançou o programa Cidadania PopRua para enfrentar o problema, oferecendo acolhimento, atendimento psicossocial e reinserção social. O ministério reforça que a proteção e garantia dos direitos da população em situação de rua são prioridades e que toda violência deve ser combatida e denunciada.

FONTE/CRÉDITOS: Portal Ativa Notícias

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