A Pequena África, reduto da cultura afro-brasileira e de profunda importância histórica no Rio de Janeiro, busca consolidar seu apelo turístico para além dos destinos tradicionais como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. A região, que abriga o Cais do Valongo, o maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, ainda não alcança o reconhecimento internacional que especialistas acreditam ser merecido.
O Cais do Valongo, fundamental para a compreensão da diáspora africana e da formação do Brasil, foi um dos focos de debate durante o encerramento do Feira Preta Festival, realizado no último domingo (31) no Pier Mauá. Especialistas reunidos no evento avaliaram que a Pequena África carece de maior destaque como atração turística global.
Antonio Pita, jornalista e um dos fundadores da plataforma Diáspora Black, defende que a região possui atrativos suficientes para figurar entre as principais rotas internacionais do Rio de Janeiro. Ele observa que o imaginário popular ainda associa a cidade majoritariamente a praias e festas, sem vincular seu potencial turístico ao seu legado histórico e tradicional.
A área é também sede de importantes instituições como o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a Pedra do Sal, que compõem o Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana. Além disso, o Grupo Afoxé Filhos de Gandhi, um dos mais antigos blocos afro do Rio, mantém viva a tradição carnavalesca e cultural da região.
Divulgação e Integração de Roteiros
Emily Borges, afro-turismóloga e fundadora da Etnias Turismo e Cultura, ressalta a necessidade de incluir a Pequena África em guias e roteiros de grandes agências de turismo, além de intensificar a divulgação em pontos estratégicos como aeroportos. Ela enfatiza que o turismo moderno busca experiências profundas e de conexão.
Pita concorda, apontando que operadores de turismo e hotéis também precisam incorporar este destino em suas ofertas. Ele sugere que a falta de destaque pode estar ligada a um certo preconceito, dificultando a promoção de um roteiro com tanto potencial genuíno.
O sucesso de destinos alternativos, como a Rocinha, evidenciado em vídeos virais nas redes sociais, demonstra o grande potencial de locais autênticos. Pita compara a experiência de visitar a comunidade, onde turistas formam filas para fotos aéreas, com o potencial ainda subutilizado da Pequena África.
Apoio e Políticas Públicas
Especialistas e moradores da Pequena África clamam por apoio e políticas públicas que garantam a conservação, sinalização e segurança do território. A integração de melhorias para os residentes é vista como essencial para a experiência do turista.
O Ministério do Turismo tem demonstrado apoio à iniciativa, com ações como a realização do encontro global de afroturismo Black Travel Summit em 2025, o que, segundo Pita, tem contribuído para aumentar a visibilidade do destino.
Iniciativas como o edital Rede Memória Viva, promovido pelo Diáspora Black e a Feira Preta, visam capacitar e financiar organizações locais, além de mapear roteiros afro com potencial de desenvolvimento comunitário no Brasil, fortalecendo a Pequena África como um polo de turismo e cultura.

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