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Terça-feira, 18 de Agosto 2026
Notícias/Direitos Humanos

Mulheres muçulmanas no Brasil enfrentam alta islamofobia, revela estudo

Relatório do Gracias/USP detalha a intolerância religiosa vivenciada por oito em cada dez fiéis, tanto nas ruas quanto na internet.

Mulheres muçulmanas no Brasil enfrentam alta islamofobia, revela estudo
© Rovena Rosa/Agência Brasil
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Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP) revelou que **mulheres muçulmanas** no **Brasil** são vítimas frequentes de **islamofobia**, com oito em cada dez delas enfrentando ataques de intolerância religiosa. A 3ª edição do Relatório de Islamofobia do Brasil, elaborado pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias), aponta que a discriminação ocorre tanto em espaços públicos quanto no ambiente digital, evidenciando um cenário preocupante de ódio e preconceito.

Para a construção do relatório, a equipe de pesquisadores do Gracias analisou detalhadamente os depoimentos de 328 mulheres. As participantes, pertencentes tanto à vertente sunita quanto à xiita do islamismo, foram categorizadas em quatro grupos distintos: brasileiras nascidas em famílias de tradição islâmica, brasileiras que se converteram à fé, estrangeiras nascidas muçulmanas e estrangeiras que se reverteram.

Os dados coletados indicam que uma parcela significativa das vítimas de islamofobia, precisamente 84,5%, são brasileiras convertidas ao islamismo. Os especialistas do Gracias sugerem que a intensa articulação coletiva dessas mulheres pode ser um dos motivos para a maior visibilidade e registro de suas experiências.

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Ainda segundo o relatório, divulgado no último sábado (20), a incidência de islamofobia é de 80,4% entre brasileiras que já descendem de uma família islâmica. Para as estrangeiras convertidas, o índice é de 75%, enquanto entre as estrangeiras nascidas muçulmanas, a taxa de vitimização registrada foi de 60%.

A face da violência: ruas, internet e ambiente de trabalho

A percepção da discriminação é quase unânime entre as brasileiras convertidas: 96,7% delas afirmam que a mulher muçulmana enfrenta preconceito no país. Este dado sublinha a abrangência do problema.

A pesquisa detalha os locais onde as fiéis do islamismo são mais frequentemente vitimadas: 36,4% dos casos ocorrem nas ruas, 30,9% na internet e 19,7% no ambiente de trabalho. Conforme os integrantes do Gracias, a **islamofobia** se manifesta com maior intensidade em contextos de grande exposição pública e interação cotidiana.

As consequências dessa discriminação são severas para muitas das entrevistadas, que relatam o desenvolvimento de quadros de depressão e transtornos de ansiedade como resultado direto dos ataques sofridos.

Uma das vítimas exemplificou o impacto profissional: "Fui obrigada a migrar de carreira após a reversão, não consegui mais atuar na área", desabafou, ilustrando a barreira imposta pelo preconceito.

A associação das **mulheres muçulmanas** ao terrorismo é uma forma recorrente de menosprezo. "No trabalho, fui chamada de mulher bomba por um médico", relatou uma das vítimas, evidenciando a gravidade das ofensas.

Outro relato chocante descreve a demissão de uma recepcionista: "Eu era recepcionista num conjunto de salas. O contador veio muito simpático e falso perguntar sobre a minha religião e vestimenta e depois disse para meu chefe que não era bom que eu trabalhasse na recepção, pois causava má impressão aos clientes dele. Fui demitida."

A professora Francirosy Campos Barbosa, coordenadora do Gracias, criticou a postura da mídia: "A mídia não tem interesse em dar espaço ao Islam, aos muçulmanos, não tem interesse em aprender que usar o véu não retira o pensamento, não transforma mulheres em seres ignorantes, nem tudo é sobre opressão, pode ser também liberdade, escolha e principalmente devoção. A imprensa é colonizada, há domínios de agências de notícias", declarou.

Apesar da alta incidência de ataques, a taxa de registro de boletins de ocorrência é baixa. Apenas 6% das brasileiras convertidas formalizam a denúncia, um índice ainda menor que o das brasileiras nascidas muçulmanas, que é de 8,7%. A falta de confiança na investigação e na resolução dos casos é um fator preponderante para essa subnotificação.

Um desafio adicional para a compreensão do problema é a ausência de dados precisos sobre a comunidade islâmica no **Brasil**. O Censo Demográfico não apresenta esses números de forma desagregada, agrupando as pessoas que se declaram muçulmanas com as de outras religiões com menor número de adeptos.

A islamofobia no ambiente virtual

No contexto digital, o relatório do Gracias aponta o Instagram como a plataforma com maior concentração de casos de agressões, totalizando 120 ocorrências, o que representa 74,5% do total registrado nas redes sociais.

O Facebook, parte do grupo Meta, e o WhatsApp somam 55 casos (34,2%). O TikTok foi mencionado em 27 ocorrências (16,8%), enquanto o X (antigo Twitter) registrou 12 menções (7,5%) de ataques de **islamofobia**.

Os pesquisadores do Gracias explicam que, no Instagram, a exposição da aparência, do cotidiano e das práticas religiosas facilita a marginalização. Já no Facebook, a polarização gerada pela formação de comunidades e grupos contribui para a disseminação do ódio.

O TikTok, por sua vez, potencializa a replicação rápida de vídeos e conteúdos ofensivos, atingindo diversos públicos e ampliando o alcance da **islamofobia** online.

Em suas diretrizes, o Instagram afirma ter como objetivo "prevenir possíveis casos de violência no meio físico que possam estar relacionados ao conteúdo em nossas plataformas", buscando coibir a propagação de discursos de ódio.

A plataforma também declara remover "palavras que incitem ou facilitem a violência e ameaças plausíveis ​​à segurança pública ou pessoal", mesmo reconhecendo que "as pessoas geralmente expressam desdém ou desacordo por meio de ameaças ou incitação à violência de maneiras casuais e sem seriedade."

No entanto, a professora Francirosy Campos Barbosa contesta essa abordagem, argumentando que a política da plataforma, formulada nesses termos, "minimiza a gravidade das ameaças e incitações à violência", comprometendo a segurança das usuárias.

Questionada pela reportagem, a Meta, empresa controladora do Instagram e Facebook, reiterou que não permite "conteúdo que promova ataques contra pessoas com base em características protegidas, conforme estabelecido em seus Padrões da Comunidade, como raça, etnia, nacionalidade, deficiência, religião, casta, orientação sexual, sexo, identidade de gênero e doença grave."

A empresa garantiu que "remove esse tipo de conteúdo sempre que identifica violações e aplica as medidas previstas em suas diretrizes", além de incentivar "as pessoas a denunciarem qualquer publicação que considerem violar nossas diretrizes", buscando a colaboração dos usuários.

Por outro lado, o TikTok não se manifestou sobre os questionamentos da Agência Brasil. A reportagem também não obteve contato com a plataforma X até o fechamento desta matéria.

FONTE/CRÉDITOS: Portal Ativa Notícias

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