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Terça-feira, 18 de Agosto 2026
Notícias/Direitos Humanos

Estudo da UnB sugere que a tarifa zero no transporte público pode ampliar o acesso à saúde

A precariedade da mobilidade urbana e os altos custos do transporte público impactam diretamente a vida de moradores da periferia, como Núbia Sales Veras, dificultando o acesso a serviços essenciais e tratamento médico.

Estudo da UnB sugere que a tarifa zero no transporte público pode ampliar o acesso à saúde
© Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Um novo estudo da Universidade de Brasília (UnB) aponta que a implementação da tarifa zero no transporte público tem o potencial de revolucionar o acesso à saúde e mitigar as desigualdades sociais, conforme exemplificado pela rotina da auxiliar de serviços gerais Núbia Sales Veras. Moradora da Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal, Núbia enfrenta uma jornada diária de 50 quilômetros até seu trabalho em Brasília, onde os custos e a ineficiência da mobilidade urbana comprometem sua qualidade de vida e acesso a tratamentos médicos essenciais.

A combinação de longas distâncias, tarifas elevadas e a precariedade do serviço de transporte público impõe severas restrições ao acesso de Núbia a serviços fundamentais. Isso inclui seu tratamento contínuo para fibromialgia, uma síndrome crônica que gera dores musculares e articulares intensas.

Em entrevista à Agência Brasil, Núbia relatou as dificuldades: "Já perdi compromisso, já perdi consulta do meu tratamento no [hospital] Sarah, tudo por causa da demora do ônibus e do valor da passagem".

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O depoimento de Núbia foi colhido pela reportagem na Rodoviária do Plano Piloto, o principal terminal de transporte público do Distrito Federal e sua região metropolitana, no centro da capital.

O custo diário de R$ 18 com passagens é outro entrave significativo, limitando não apenas o acesso a serviços, mas também sua vida social e oportunidades.

"Muitas vezes não pude utilizar para a cultura, para colocar minhas filhas em uma escola melhor, mas mais distante, por causa desse valor da passagem", lamentou Núbia.

A vivência de Núbia se alinha às conclusões de um recente estudo do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). A pesquisa aborda como as dificuldades no transporte público afetam a vida de milhares de brasileiros em grandes centros urbanos.

Intitulado "Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços", o artigo destaca que o custo das tarifas e a má qualidade do transporte — caracterizada por superlotação, insegurança e imprevisibilidade — criam barreiras significativas para a continuidade do cuidado em saúde. Isso resulta em atrasos de diagnósticos, faltas a consultas e prejuízos no acompanhamento de doenças crônicas.

O impacto do racismo estrutural na mobilidade

O policy paper, um relatório técnico, enfatiza que os extensos tempos de deslocamento nas regiões metropolitanas são "severos agravantes de sofrimento psíquico, estresse crônico e exaustão", contribuindo para quadros de ansiedade e depressão.

A pesquisa revela que esses impactos são ainda mais acentuados sob a ótica das desigualdades raciais. A população negra, frequentemente com menor renda e residente em áreas periféricas, é desproporcionalmente dependente do transporte público.

"Isso significa que as barreiras econômicas e territoriais à mobilidade incidem de forma desproporcional sobre essa população, limitando seu acesso à cidade e aos seus serviços", conclui o estudo.

Outro exemplo é o da aposentada Helena Simão, de 72 anos. Encontrada na Rodoviária do Plano Piloto, ela se deslocava com dificuldade antes de embarcar para Samambaia, a cerca de 30 quilômetros do centro do DF.

Helena, que convive há anos com osteoporose, uma doença que enfraquece os ossos, usufrui da gratuidade para idosos. Contudo, ela critica a baixa frequência de ônibus nas regiões periféricas.

"Eu já não pago o transporte, mas demora muito para passar e já perdi consulta médica", desabafou Helena.

Dados do DataSUS, citados na pesquisa, revelam que mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna em comparação com mulheres brancas. Essa disparidade está "diretamente conectada às restrições materiais e espaciais de locomoção impostas pela segregação urbana".

O potencial do transporte universal e a tarifa zero

O estudo enfatiza que a eliminação da barreira econômica do transporte público, através da implantação da tarifa zero universal, pode ser uma política estruturante na redução de desigualdades. Vai muito além de uma mera medida de transporte.

"Tem potencial de transformar a relação da sociedade com uma política pública, tal qual o Sistema Único de Saúde (SUS) propiciou, mas agora do ponto de vista do transporte", analisa Paíque Duques Santarém, pesquisador da UnB e um dos autores do artigo.

A discussão sobre a tarifa zero e a mobilidade urbana como pilares da qualidade de vida é amplamente debatida, conforme explorado em publicações especializadas que aprofundam o tema.

Para os pesquisadores, essa desoneração total do custo da tarifa representa uma ferramenta estratégica. Ela visa garantir o acesso efetivo a equipamentos públicos, assegurar a continuidade do cuidado terapêutico e "tensionar, de forma definitiva, os padrões históricos de exclusão territorial e racial que fragmentam as cidades brasileiras".

Um estudo prévio do mesmo grupo de pesquisa sobre a tarifa zero no Brasil sugere que sua implementação nas 27 capitais injetaria R$ 60,3 bilhões anuais na economia. Tal medida poderia gerar um impacto socioeconômico comparável ao do programa Bolsa Família.

FONTE/CRÉDITOS: Portal Ativa Notícias

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