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Terça-feira, 18 de Agosto 2026
Notícias/Direitos Humanos

Pesquisa aponta que 90% dos moradores de comunidades reprovam operações policiais violentas

Levantamento inédito com mais de 4 mil pessoas nas comunidades do Rio de Janeiro revela forte desaprovação a confrontos armados e excessos policiais.

Pesquisa aponta que 90% dos moradores de comunidades reprovam operações policiais violentas
© Joédson Alves/Agência Brasil
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Nove em cada dez residentes de comunidades do Rio de Janeiro expressam reprovação a operações policiais que envolvem confronto armado, um modelo de atuação que tem sido frequente na capital fluminense. A constatação provém de uma pesquisa pioneira realizada por seis organizações da sociedade civil, que investigou a percepção de moradores sobre essas ações.

O estudo, intitulado "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?", foi divulgado nesta quarta-feira (20). A pesquisa ouviu presencialmente 4.080 moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha e da Maré, na zona norte, e da Rocinha, na zona sul, entre 13 e 31 de janeiro deste ano. Cada uma das quatro comunidades teve 1.020 entrevistas.

O cenário de confronto bélico recorrente motivou a investigação. Somente na Maré, entre 2023 e 2025, foram registradas 92 operações policiais com confrontos, resultando em mortes e feridos.

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Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré e coordenadora do estudo, ressaltou a importância de contextualizar a opinião dos moradores. "Não se pode pensar que o morador que reside ali, que precisa sair todos os dias para trabalhar, levar o filho na escola, que ele aprova esse tipo de operação simplesmente, sem entender e contextualizar. Nos preocupa que essa ideia seja generalizada dessa maneira", afirmou à Agência Brasil.

Brutalidade e excessos policiais

Os resultados indicam que 73% dos moradores dos complexos do Alemão, da Penha, da Maré e da Rocinha não concordam com o atual modelo de operação policial, enquanto 25% manifestaram concordância e 2% não responderam.

Ao serem questionados sobre a continuidade do modelo atual, 92% reprovaram a abordagem. Desses, 68% defendem que as operações sejam realizadas de outra forma, e 24% acreditam que tais operações não deveriam ocorrer em favelas.

Mesmo entre os que aprovam as operações, apenas 20% defendem o modelo vigente. Eliana Silva enfatizou a necessidade de compreender o histórico e a evolução dessas intervenções, que muitas vezes são vistas como a única forma de atuação policial nas favelas.

Ela também destacou a representação negativa de moradores de favelas na mídia, que pode reforçar a crença de que o confronto armado é a solução para o crime, ignorando os impactos na vida cotidiana.

Para 91% dos entrevistados, há excessos e ilegalidades por parte da polícia nessas operações. Essa percepção é compartilhada por 85% daqueles que apoiam as operações. Um total de 90% dos entrevistados considera os excessos inaceitáveis, e 95% dos que discordam das operações repudiam a brutalidade.

Mesmo entre os que concordam com as operações, 74% condenam os excessos policiais, evidenciando que "concordar com as operações não significa aceitar violência", conforme aponta a pesquisa.

Eliana Silva argumenta que não há solução para o crime organizado sem uma visão mais ampla e coletiva da cidade, que não se restrinja a focar apenas nas favelas.

"Ela está focalizada. O problema são as favelas. E os próprios moradores acabam influenciados por essa visão que é passada também pela mídia", observou.

Contudo, quando questionados sobre abusos policiais e violações de direitos, a maioria dos entrevistados manifesta discordância.

Direitos e impactos na vida cotidiana

O objetivo do estudo é analisar como o combate ao crime afeta os moradores das comunidades, que frequentemente têm sua rotina de trabalho e estudo prejudicada. Desde 2016, organizações comunitárias atuam nesses territórios para identificar e produzir conhecimento sobre o impacto desses confrontos.

"A gente vê uma escalada em relação a esses enfrentamentos, à maneira como a violência vem acontecendo e, também, à naturalização disso", comentou Eliana Silva.

Ela citou o impacto na educação: no Complexo da Maré, com 140 mil habitantes, escolas municipais chegam a fechar por 30 a 40 dias, comprometendo a qualidade do ensino.

Para Eliana Silva, a pesquisa visa afirmar o direito à cidade para os moradores dessas comunidades, preservando-os como sujeitos.

A restrição de circulação é o impacto mais recorrente das operações policiais, apontado por 51% dos que discordam das operações e 41,5% dos que concordam. Em seguida, aparece a invasão de domicílios ou estabelecimentos, citada por 37,5% dos que discordam e 22,9% dos que concordam.

Tiroteios recorrentes e balas perdidas foram mencionados por 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que concordam com as intervenções policiais.

Ano eleitoral e racismo

A letalidade na Maré aumentou 58% em 2025 em relação a 2024. Eliana Sousa Silva defende abordagens alternativas ao combate ao crime, sem o uso intensivo de armas.

Ela criticou o direcionamento de emendas parlamentares para a compra de fuzis para a polícia do Rio de Janeiro.

"É muito questionável quando a gente vê que o dinheiro público, que deveria ser direcionado para aumentar a capacidade e o acesso das pessoas a políticas públicas está sendo destinado à compra de mais armas para a polícia".

A diretora fundadora da Redes da Maré assegurou que a operação mais letal na capital fluminense, ocorrida em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha com 122 mortos, demonstrou que o morador de favela não concorda com esse tipo de confronto.

"Eu acho que todos nós, que temos origem na favela, ficamos muito incomodados com esse processo".

Perguntados se operações semelhantes deveriam se repetir, 85% dos moradores disseram que não, 7% responderam que às vezes e 7% afirmaram que sim.

Para Eliana Silva, a segurança pública será um tema central neste ano eleitoral, com candidatos que focam em "entrar nas favelas querendo destruir lá o traficante ou a milícia, mas eles não querem saber do morador".

Ela enfatiza a importância de o eleitor analisar os projetos dos candidatos sobre violência e crime organizado, desconfiando de promessas superficiais.

Racismo e medo da polícia

Eliana Silva aponta que a distribuição desigual de políticas e recursos públicos cria uma condição de subalternidade para cidadãos como os moradores de favela, cujo direito à vida é ameaçado por operações com confronto bélico.

"No caso dos moradores de favela, das pessoas empobrecidas, há claramente um projeto de enfrentamento que gera, em muitos casos, processos genocidas, processos de chacina. Então, a gente chama atenção também para isso, porque está lutando muito pelo direito à vida".

A discordância com operações policiais é de 81% entre pessoas pretas, embora seja majoritária em todos os grupos raciais. A concordância alcançou 30% entre pessoas brancas.

O estudo também revela que a percepção de racismo nas operações é majoritária: 61% dos entrevistados afirmam que há racismo no planejamento e execução das operações em favelas.

Jovens de 18 a 29 anos são os mais contrários às operações, com 79% de discordância. O estudo sugere que isso pode estar ligado à maior exposição à violência, seja por estarem em espaços públicos durante operações, por serem alvos de criminalização ou pela proximidade com vítimas.

Medo e indignação

O medo da polícia foi outro ponto abordado. Eliana recorda o uso do "caveirão", o veículo blindado, e como seu nome já transmitia medo às crianças.

No total, 78% dos moradores das quatro favelas declararam sentir medo da polícia durante operações, percentual que chega a 85% entre os contrários às operações e 59% entre os favoráveis.

Há uma inversão na percepção do papel do Estado. Ao serem questionados sobre indignação ou revolta, 50% dos entrevistados sentem bastante, 25% um pouco, e 24% não sentem.

Entre os que concordam com as operações, 61% sentem indignação ou revolta em relação a grupos armados. Contudo, o medo da polícia (59%) supera o medo dos grupos armados (53%) nesse mesmo grupo.

Isso demonstra que, mesmo entre apoiadores das operações, a polícia é vista como fonte de medo mais frequente que os próprios criminosos. Os moradores de favelas convivem, portanto, com duas fontes de violência: policial e criminosa.

Entidades envolvidas

A pesquisa foi realizada pelas organizações Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, com atuação direta nos territórios pesquisados.

O estudo contou com o apoio da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Fundação Tide Setúbal, Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, Instituto Fogo Cruzado, Laboratório de Análise da Violência da UERJ e Open Society Foundations.

FONTE/CRÉDITOS: Portal Ativa Notícias

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