A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) comemorou seus 70 anos de atuação em audiência na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (28). O evento reuniu a liderança do órgão para apresentar os progressos recentes, os desafios enfrentados e os planos futuros. O presidente da CNEN, Francisco Rondinelli Júnior, destacou a importância da produção nacional de radiofármacos e atualizou o cronograma para a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), considerado essencial para o desenvolvimento do setor nuclear no país.
Rondinelli Júnior ressaltou que o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) já é responsável por mais de 80% dos exames de medicina nuclear com a produção de tecnécio. Ele informou que investimentos significativos estão sendo feitos para aprimorar o fornecimento desses insumos, incluindo o RMB, que permitirá a produção local de radioisótopos, matéria-prima fundamental para radiofármacos, reduzindo a dependência externa. A inauguração do local onde o reator será instalado está prevista para junho.
As atividades da CNEN também abrangem a esterilização de produtos médicos, farmacêuticos e biológicos, além da radioesterilização de tecidos, como o uso de pele de tilápia no tratamento de queimaduras. O órgão também desenvolve pesquisas e produtos para o combate a vetores de doenças como dengue e zika, a eliminação de fungos em bens culturais, o beneficiamento de minerais por radiação e a fabricação de medidores radioativos e escâneres de carga.
Geração de energia e soberania nacional
O deputado Julio Lopes (PP-RJ), coordenador da Frente Parlamentar da Tecnologia e Atividades Nucleares, defendeu a conclusão da Usina Angra 3 como um passo estratégico para garantir energia limpa, segura e fortalecer a soberania nacional. Ele criticou o preconceito e a desinformação que ainda cercam o setor nuclear.
“Enquanto muitos ainda tratam o setor nuclear com grande preconceito e desinformação, nós sabemos que as grandes potências do mundo estão ampliando investimentos em energia nuclear. Temos uma das maiores reservas de urânio do planeta, temos competência técnica e científica, pesquisadores extraordinários, capacidade instalada e temos a obrigação de transformar esse potencial em desenvolvimento econômico e empregos qualificados”, afirmou o deputado.
Necessidade de recomposição do quadro de servidores
A diretoria da CNEN solicitou, durante a audiência, maior estabilidade orçamentária e a recomposição urgente do quadro de servidores. A instituição enfrenta um déficit significativo, com apenas 46% dos cargos ocupados, um índice que pode cair para 23% com as aposentadorias previstas. A situação começou a ser amenizada com o concurso de 2025 e a nomeação dos primeiros 100 novos profissionais.
O deputado Reimont (PT-RJ), um dos organizadores do evento, reforçou o apelo pela nomeação de todos os 440 concursados que compõem o quadro reserva. “Na questão da contratação dos concursados, a gente precisa avançar. Eu tenho cobrado do meu governo”, declarou.
Histórico e desafios da CNEN
Criada em 1956, a CNEN viu o Brasil abrigar seu primeiro reator de pesquisa no hemisfério sul no ano seguinte. Transformada em autarquia em 1962, o órgão passou por uma reestruturação em 2025, focando em pesquisa, desenvolvimento, inovação e formação de recursos humanos, com funções divididas com a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), responsável pela regulação e fiscalização.
Ao longo de sua trajetória, a CNEN lidou com o grave acidente radiológico de Goiânia em 1987, envolvendo o Césio-137. O incidente, que resultou na morte de quatro pessoas, foi detalhado em uma recente série da Netflix, ganhando repercussão internacional.

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