A defesa de Deolane Bezerra pronunciou-se oficialmente pela primeira vez após a prisão da influenciadora e advogada. Deolane foi detida durante a Operação Vérnix, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Polícia Civil, que visa desarticular um esquema de lavagem de dinheiro supostamente ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A nota divulgada pela banca de defesa expressa a inocência de sua cliente e questiona a proporcionalidade das medidas adotadas.
Segundo as investigações, Deolane teria recebido fundos oriundos da facção criminosa por intermédio de uma empresa de transportes, identificada como um braço financeiro da cúpula do PCC. A defesa, em comunicado, declarou considerar a prisão preventiva uma medida desproporcional.
“Inicialmente ressaltamos a sua mais absoluta inocência, bem como, que os fatos serão devidamente esclarecidos por esta, em momento oportuno. Por hora e como o devido acatamento, consideramos desproporcionais as medidas firmadas em face de Deolane e esta banca de defesa seguirá cooperando tecnicamente com a Justiça para demonstrar a licitude de suas atividades na condição de advogada que é, confiando plenamente no discernimento, na razoabilidade e na imparcialidade do Poder Judiciário”, afirma a nota.
Operação desarticula esquema de lavagem de dinheiro do PCC
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em nome da influenciadora. Este valor, conforme os investigadores, apresenta indícios de lavagem de dinheiro e origem não comprovada, segundo informações da GloboNews.
A operação também expediu mandados contra integrantes de alto escalão da facção, incluindo Marco Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC. Por já estar detido, a nova ordem de prisão preventiva será comunicada ao sistema penitenciário.
Entre os alvos da operação estão Alejandro Camacho, irmão de Marcola; Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha do criminoso; Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, também sobrinho; e Everton de Souza, conhecido como “Player”, considerado o operador financeiro da organização criminosa. Ao todo, foram emitidos seis mandados de prisão preventiva e diversas ordens de busca e apreensão.
Deolane Bezerra esteve em Roma, na Itália, nas semanas anteriores e teve seu nome incluído na lista de Difusão Vermelha da Interpol. Ela retornou ao Brasil na quarta-feira, quando agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em sua residência em Barueri e outros locais vinculados a ela.
O influenciador Giliard Vidal dos Santos, considerado filho de criação de Deolane, e um contador ligado ao grupo investigado também foram alvos da operação.
Investigação aponta uso de transportadora para movimentação de recursos ilícitos
A investigação centraliza-se em um esquema de lavagem de dinheiro que utilizava uma transportadora de cargas, sediada em Presidente Venceslau, no interior paulista, como fachada. Esta empresa é apontada como controlada pela cúpula do PCC.
De acordo com os investigadores, Everton “Player” teria sido interceptado em mensagens orientando a distribuição de recursos da empresa e indicando contas para o destino do dinheiro. Paloma Camacho é suspeita de intermediar negócios da família na Espanha, enquanto Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho estaria na Bolívia, recebendo parte dos valores lavados.
Marcola e Alejandro Camacho estão detidos na Penitenciária Federal de Brasília. A Justiça também ordenou o bloqueio de 39 veículos, avaliados em mais de R$ 8 milhões, e R$ 357,5 milhões em ativos financeiros associados aos investigados.
As investigações, iniciadas em 2019 após a apreensão de bilhetes e manuscritos em uma penitenciária em Presidente Venceslau, desdobraram-se em três inquéritos sucessivos. O primeiro identificou ordens internas da facção e menções a ataques contra servidores públicos. O segundo aprofundou a ligação da transportadora com o grupo criminoso.
Em 2021, a Operação Lado a Lado revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico e o uso da empresa como estrutura de lavagem de dinheiro do PCC. Durante essa operação, o celular de Ciro Cesar Lemos, operador central do esquema, foi apreendido, fornecendo detalhes sobre as movimentações financeiras da empresa Lopes Lemos Transportes, também conhecida como Lado a Lado Transportes.
A partir dessas informações, surgiu uma nova frente investigativa focada em conexões financeiras com Deolane Bezerra. Os investigadores afirmam que Ciro Cesar Lemos comprava caminhões, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles. O celular apreendido continha imagens de depósitos em favor de contas de Deolane Bezerra e Everton de Souza. Ciro Cesar Lemos e sua esposa estão foragidos.
Depósitos fracionados e movimentações incompatíveis sob investigação
O inquérito policial aponta movimentações financeiras incompatíveis com a renda formal declarada por Deolane Bezerra. Isso inclui a circulação de valores milionários, recebimentos sem origem esclarecida e a aquisição de bens de alto padrão.
Os investigadores sustentam que a projeção pública e a atividade empresarial formal de Deolane eram utilizadas como “camadas de aparente legalidade” para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos. O cruzamento de provas apreendidas com relatórios financeiros levou a polícia a identificar Deolane como receptora de dinheiro proveniente do PCC.
Parte dessas movimentações teria ocorrido por meio de depósitos em espécie, realizados a partir do caixa da facção. Entre 2018 e 2021, Deolane teria recebido R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil, uma prática conhecida como “smurfing”, utilizada para dificultar o rastreamento financeiro.
A polícia também alega que Everton “Player” indicava contas da influenciadora para os “fechamentos” mensais do esquema. Investigações apontam ainda quase 50 depósitos em duas empresas ligadas a Deolane, somando R$ 716 mil, provenientes de uma empresa apresentada como banco de crédito, cujo responsável recebia, em média, um salário mínimo mensal.
Conforme informações da GloboNews, a análise bancária não identificou pagamentos compatíveis com os supostos créditos mencionados nas transferências, o que, para a polícia, indica ocultação e dissimulação de recursos ligados ao PCC. A investigação também não encontrou prestação de serviços jurídicos que justificasse os valores recebidos pela influenciadora.

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