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Sábado, 01 de Agosto 2026
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Iniciativas buscam apoiar mães na ciência brasileira

Movimentos e políticas públicas visam reduzir o 'efeito tesoura' e facilitar a permanência feminina na carreira acadêmica.

Iniciativas buscam apoiar mães na ciência brasileira
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Embora o Brasil forme mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, mulheres ainda são minoria em posições de docência e recebem apenas um terço das bolsas de produtividade para cientistas de destaque. Esse cenário, conhecido como "efeito tesoura", impacta ainda mais as mães, um tema que vem ganhando atenção nos últimos anos.

Fernanda Staniscuaski, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), relata que a maternidade a forçou a desacelerar sua ascensão profissional. O que seria uma pausa momentânea se prolongou, evidenciando a dificuldade em romper esse ciclo, onde menor produção leva a menos oportunidades de financiamento e bolsas, retroalimentando a redução da atividade científica.

"A gente precisa das condições de retorno", enfatiza Staniscuaski, destacando a necessidade de reconhecimento da pausa pela maternidade, mas também de suporte para a retomada da carreira. A falta de apoio adequado pode criar um ciclo vicioso de menor produção e escassez de oportunidades.

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Em 2016, Staniscuaski fundou o movimento Parents in Science. A iniciativa, que hoje conta com mais de 90 cientistas associados, em sua maioria mulheres, nasceu da necessidade de debater a parentalidade entre pesquisadores e suprir a falta de dados oficiais sobre o número de docentes e pesquisadores com filhos no Brasil, impedindo uma medição precisa do impacto na carreira.

O movimento também aponta que os padrões desiguais da sociedade se reproduzem no ambiente acadêmico. "As mães carregam o ônus do cuidado", afirma Staniscuaski, apesar de reconhecer uma mudança cultural gradual com maior participação paterna. Contudo, a divisão do cuidado ainda está longe de ser equitativa.

Análise de dados revela disparidades

Um documento recente do Parents in Science analisou a entrada e permanência na docência de pós-graduação. O estudo, com dados de cerca de mil docentes, revelou que 43,7% dos pais deixaram seus programas por iniciativa própria, contra 37,5% descredenciados por perda de produtividade. Entre as mães, a proporção se inverte: apenas 24,6% saíram voluntariamente, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não atingirem a produção mínima exigida.

A dificuldade de reinserção após o descredenciamento também é maior para as mães. Entre os que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, comparado a 25% dos pais. Para aqueles que saíram a pedido, 25% das mães não retornaram, contra apenas 7,1% dos pais.

Staniscuaski ressalta que, além da questão de gênero, a raça influencia significativamente. Mulheres pretas, pardas e indígenas permanecem sub-representadas, e barreiras adicionais, como a maternidade de filhos com deficiência, limitam ainda mais o espaço dessas mulheres.

Desafios na graduação e pós-graduação

Os obstáculos para mães na carreira acadêmica começam cedo. Cristiane Derne, mestranda em Serviço Social na PUC/Rio, enfrentou desafios durante a graduação na UFRJ. Morando em Magé e precisando conciliar trabalho, transporte e os cuidados com o filho, ela considerou desistir diversas vezes.

A UFRJ oferece um auxílio-educação, mas o benefício se encerra quando a criança completa seis anos, não contemplando Derne. O apoio de coletivos de mães da universidade foi crucial, oferecendo informações sobre direitos e acolhimento emocional, o que a motivou a seguir adiante e a transformar sua experiência em objeto de estudo.

Atlas da Permanência Materna lança luz sobre políticas universitárias

O Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade publicou o Atlas da Permanência Materna, compilando políticas de permanência em universidades federais. O levantamento mostrou que a assistência financeira é a medida mais comum, presente em 63 das 69 instituições, com valor médio de R$ 370. Contudo, a oferta de benefícios diminui drasticamente na pós-graduação, com apenas 13 instituições estendendo o auxílio a mestrandas e doutorandas.

Apenas oito universidades possuem cuidotecas. O Ministério da Educação lançou um edital de R$ 20 milhões para a implantação desses espaços em outras unidades. As autoras do Atlas criticam a insuficiência financeira, que transfere o ônus logístico do cuidado para a esfera privada, levando ao esgotamento e evasão.

Diversidade e novas perspectivas na ciência

Liziê Calmon, doutoranda em planejamento urbano e mãe, questionou diversas vezes sua permanência na carreira acadêmica devido à acumulação de responsabilidades. No entanto, ela percebeu que a maternidade lhe trouxe um olhar diferenciado para realidades negligenciadas.

Sua pesquisa de doutorado, por exemplo, foca em como mulheres moradoras da Vila Cruzeiro vivenciam a cidade ao se deslocarem para trabalhar como empregadas domésticas em bairros nobres, buscando elaborar políticas públicas que atendam a essas demandas. Calmon também é membro do coletivo Filhas de Sabah, que articulou a lei do Marco Legal Mães na Ciência no Rio de Janeiro.

A nova lei estadual prevê que o trabalho de cuidado será pontuado em processos seletivos de bolsas e editais. "Ao invés de olhar como um problema, isso vai ser visto como um ponto positivo", defende Calmon, ressaltando as habilidades desenvolvidas com o cuidado.

Editais específicos e ações compensatórias

O Rio de Janeiro foi pioneiro com o primeiro edital de financiamento voltado especificamente para mães cientistas, lançado em 2024 pela Faperj em parceria com o Parents in Science e o Instituto Serrapilheira. A iniciativa apoiou 134 pesquisadoras e terá nova edição em março de 2025. Pernambuco planeja uma seleção semelhante.

Leticia de Oliveira, da Faperj, considera o edital exclusivo uma ação "compensatória" necessária, pois essas pesquisadoras são prejudicadas em seleções comuns. Ela argumenta que o "mérito" baseado apenas em produtividade não considera que as mulheres, ao se tornarem mães, enfrentam uma queda natural na produção, sem que isso afete sua qualidade como pesquisadoras.

A Faperj também implementou uma medida em editais gerais: candidatas que se tornaram mães nos cinco anos anteriores à inscrição têm seus currículos avaliados por um período de sete anos. "Vários trabalhos mostram que uma ciência diversa, feita por pessoas diversas, gera uma melhor ciência", destaca Oliveira.

Ações nacionais e o papel da Capes

Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes, enfatiza a importância da inclusão para uma ciência de maior qualidade. A Capes lançou o programa Aurora, que concederá até 300 bolsas para professoras de pós-graduação gestantes ou mães, permitindo a adição de um pesquisador de pós-doutorado às suas equipes.

O objetivo é que esse profissional atue como assistente, garantindo a continuidade das pesquisas e orientações durante a licença maternidade. "É uma forma de não parar a produção acadêmica dessa mulher durante a chegada do filho", afirma Carvalho.

A presidente da Capes destaca que o desafio é manter as mulheres na pesquisa, mesmo sendo mães. Historicamente, muitas evitavam a maternidade para progredir na carreira. As iniciativas compensatórias são cruciais para mitigar os efeitos da maternidade e combater o "viés implícito", onde homens são frequentemente escolhidos em detrimento de mulheres.

A legislação também avançou: em julho de 2024, foi sancionada lei que prorroga por seis meses a data de conclusão de cursos em caso de gestação de risco ou cuidados com a criança, com extensão do prazo para bolsistas. Em abril de 2025, entrou em vigor lei que proíbe a discriminação por maternidade em processos de seleção e renovação de bolsas, ampliando o período de avaliação de produtividade em casos de licença-maternidade.

FONTE/CRÉDITOS: Portal Ativa Notícias

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