O sociólogo e ambientalista Miguel de Barros afirmou que o Brasil e nações africanas sofrem constantes investidas corporativas devido às suas reservas de terras raras. A declaração foi feita durante o 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as), realizado na Universidade de Brasília (UnB), onde o especialista alertou sobre a nova onda de exploração predatória promovida por países desenvolvidos.
Segundo o pesquisador de Guiné-Bissau, eleito a personalidade mais influente do ano pela Confederação da Juventude da África Ocidental, os países do Norte Global articulam um projeto neocolonial. Essa estratégia visa monopolizar os recursos naturais estratégicos para a produção de tecnologia avançada e equipamentos militares, colocando em risco a soberania e a subsistência das populações locais.
Durante a conferência magna, Barros destacou que os insumos extraídos dessas regiões são essenciais para indústrias como a automobilística elétrica, de telefonia e energia nuclear. Ele ponderou ainda que controlar a Amazônia equivale a dominar reservas vitais de água, alimentos e energia, consolidando o poderio geopolítico e militar de corporações estrangeiras sobre territórios vulneráveis.
Impacto da inteligência artificial no saber tradicional
O cientista social estendeu sua crítica ao ecossistema tecnológico contemporâneo, ressaltando que o avanço da inteligência artificial integra essa mesma dinâmica de dominação. Para ele, a substituição da capacidade humana por máquinas financiada pelo setor privado ocidental atua como um mecanismo de apropriação do patrimônio cultural e intelectual dos povos negros.
Diante desse cenário, Miguel de Barros defendeu a criação de frentes tecnológicas autônomas que fortaleçam a resistência das comunidades tradicionais. O pesquisador enfatizou que ferramentas modernas vêm sendo aplicadas até na manipulação da biomedicina, exigindo resposta à altura por parte da academia e dos órgãos públicos.
Desigualdade na saúde e vulnerabilidade social
Ao abordar a conjuntura da saúde global, o sociólogo criticou a conduta durante a recente pandemia de Covid-19, ressaltando que a falta de cooperação impediu a transferência de tecnologias e medicamentos para a África. Como reflexo dessa assimetria, apenas uma quarta parte da população africana recebeu o esquema vacinal completo com duas doses.
Por fim, Barros argumentou que o racismo estrutural orienta a seletividade sobre o direito à vida no modelo econômico vigente. Ele concluiu ressaltando que o resgate dos saberes ancestrais das comunidades negras e tradicionais é um passo decisivo para assegurar a emancipação e a autonomia política desses povos frente às disputas internacionais.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se