O clima esquentou na política carioca às vésperas da virada de ano. O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar a Prefeitura do Rio por suposta intolerância e discriminação religiosa. O foco da investigação é o "Palco Gospel" (Palco Leme), que pelo segundo ano consecutivo terá espaço exclusivo na orla, enquanto entidades alegam que manifestações de matriz africana e outras crenças foram excluídas da programação oficial.
A denúncia foi protocolada pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), que acusa a gestão municipal de favorecimento desproporcional ao público evangélico em um Estado laico.
Os Argumentos do Embate
O Lado do MPF e Entidades:
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Exclusão Histórica: O babalawô Ivanir dos Santos e o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras argumentam que o Réveillon de Copacabana nasceu das tradições de Umbanda e Candomblé, que hoje não possuem palcos dedicados.
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Isonomia: O MPF quer entender por que apenas um segmento religioso possui um palco temático com investimento público direto em cachês (que somam centenas de milhares de reais).
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Reunião de Emergência: O órgão marcou uma reunião com a prefeitura e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da OAB-RJ para discutir políticas de enfrentamento ao racismo religioso.
A Defesa de Eduardo Paes:
O prefeito utilizou suas redes sociais para rebater as críticas de forma incisiva, classificando-as como "preconceito":
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"Copacabana é de todos": Paes afirmou que a música gospel é um dos gêneros mais ouvidos do Rio e tem direito a seu espaço, assim como o samba e o piseiro.
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Diversidade: "Amém! Axé! Shalom! Namastê! O povo cristão também tem direito a celebrar", escreveu o prefeito, tentando suavizar a polarização.
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Relatório de Estilos: Paes chegou a publicar um gráfico demonstrando que o samba e a MPB dominam a maioria dos 13 palcos da cidade, e que o palco gospel é apenas uma fração do evento.
Programação do Palco Gospel (Leme)
Apesar da investigação, a programação está mantida para o dia 31, a partir das 19h:
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Atrações: DJ Marcelo Araújo, Midian Lima, Samuel Messias, Thalles Roberto e Grupo Marcados.
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Localização: Estrutura montada na altura do Leme, tradicionalmente voltada para um público mais familiar e religioso.
Repercussão Política
O caso também ganhou contornos eleitorais. Críticos do prefeito sugerem que a manutenção do palco é um aceno ao eleitorado evangélico visando as eleições estaduais de 2026. Já aliados de Paes defendem que o evento reflete a realidade demográfica da cidade, onde o segmento gospel cresceu exponencialmente.
"A diversidade não pode ser apenas um discurso de redes sociais, ela exige prática concreta de reconhecimento e igualdade no uso do espaço público", afirmou o professor Ivanir dos Santos em nota.

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